segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fim de Festa | Domingo | intervenção de encerramento por Paulo Esperança


Termina amanhã, dia 2 de Agosto, no desfile das Festas Gualterianas, o que começou faz, precisamente amanhã, um ano.
De facto, nesse desfile, a “chaimite” de Salgueiro Maia e de tantos outros homens e mulheres que fizeram da sua vida um permanente combate pela chegada do “dia inteiro e limpo” que Sofia de Mello Breyner havia adivinhado caminhará orgulhosamente por estas ruas de Guimarães fazendo “guarda de honra” ao carro “80 Anos de Zeca”.
Termina amanhã o que sempre esteve estabelecido e acordado!
Quando a Associação José Afonso (núcleo do norte) desafiou no Verão passado uma série de entidades colectivas a celebrarem, conjuntamente, a data de nascimento de José Afonso e o orgulho que a humanidade deve ter em poder desfrutar da sua obra e do seu exemplo cívico, sabia ao que ia.
Sabíamos que íamos à luta, ao confronto de ideias, enfim, à necessidade de juntar forças para “agitar a malta”!
E foi lindo!
Vocês não conseguem imaginar a emoção que foi ver os “putos” da Escola da Ponte (Vila das Aves) a cantarem no átrio do Coliseu do Porto, ou a malta da Faculdade de Belas Artes a ouvir histórias sobre o Canto de Intervenção! Ou as tertúlias no CAR, no “Gato Vadio”, na Casa Viva, em Alenquer ou em Braga…e sei lá que mais!
Para não vos falarmos das jornadas em Cangas, Redondela, Santiago de Compostela, Vigo, Ferrol…sempre na Galiza!
Preocupamo-nos…TODOS os subscritores deste projecto em levar o Zeca a quem o não conhecia: o saudosismo não fez parte do nosso ideário!
Celebrar o poeta, andarilho e cantor é afirmar de forma clara que o mundo é composto de mudança e que os “vampiros” de há 40 anos estão aí, de novo, à espreita, para “chupar o sangue fresco da manada”!
Por isso, temos o direito, neste Largo de todas as cores, no fim deste projecto “80 Anos de Zeca” de continuar a desejar que se inventem pontos de encontro das “grandolas” que precisamos de ver nascer e renascer todos os dias.
O projecto “80 Anos de Zeca” que cresceu e se afirmou entre 2 de Agosto de 2009 e 1 de Agosto de 2010 quer, com as iniciativas que decorreram durante este fim-de-semana assinalar essa data na certeza de que continua a fazer falta cantar, ler e olhar para o Zeca dos óculos grandes e distraído, mas sempre atento às amarguras da vida que perpassam pelos seres humanos.
Pegue-se nalgumas das músicas que nos deixou e aí estão elas, infelizmente, tão actuais: a denúncia da violência de género, a crítica aos senhores do “posso, quero e mando”, a solidariedade com os povos oprimidos, a denúncia da exploração do homem pelo homem, a esperança de que com o permanente desassossego esta vida não tem que ser, sempre, cinzenta e triste.
Por isso, como o Zeca faria seguramente, queremos daqui saudar todos os homens e mulheres que, gritando o seu ódio ao vazio, clamam palavras de esperança por um mundo mais inclusivo e solidário, no fundo exigindo que a justiça social não seja apenas uma figura de retórica vertida na Constituição da Republica.
Estamos aqui hoje porque como o Zeca, continuamos a pensar que faz falta avisar e agitar a malta, que faz falta a inquietação quotidiana, que é preciso a denúncia de um sistema feio e ameaçante que transforma os homens e as mulheres em números apenas necessários para rever o PIB ou impor desumanização.
Nesta jornada de memórias, fundamentalmente viradas para o futuro quisemos trazer até vós a certeza de que o mundo sem muros nem ameias, com gente igual por dentro e gente igual por fora, está aí, em todos os “cantinhos” de cada um de nós, à espera do que faz falta fazer.
A insubmissão tem de nascer em cada minuto que passa!
Vamos a isso… porque isso… vai valer a pena!
Contem connosco para tudo…e para o resto que faz falta fazer!
Até sempre Zeca… até sempre para todos nós …na certeza de que as esquinas da vida e da luta serão sempre o nosso permanente local de encontro.

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